
Há algum tempo soube de mais uma coisa que distingue a nobreza da plebe: a forma como é encarado um evento desportivo.
Enquanto a nobreza se diverte a viver a competição,não torcendo por nenhuma das partes,a plebel vibra pelos seus.
Descobri recentemente que é muito fácil ser da nobreza quando o nosso país não está envolvido ou quando não temos qualquer preferência por nenhum dos intervenientes.
Estava, portanto,bastante relaxada quando comecei a assistir ao US Open, através da Eurosport. Não tinha quaisquer favoritos (as) e apenas me interessava ver bom ténis, desporto que nem é o que me mais me faz vibrar .
Aliás, embirrava até um pouco com esta modalidade porque,sempre que dois tenistas de defrontavam durante infindáveis horas, lá se lixava a minha esperança de ver na totalidade as competições de Ginástica Rítmica.
No entanto, naquela altura, não havia GR para ver, era-me indiferente quem ganhava ou perdia e o nome Federer só me lembrava horas de frustração á espera que aquela patetice (muito interessante quando não há nada mais para ver) de atirar bolas de um lado para o outro acabasse para que eu me pudesse deslumbrar com verdadeiro desporto.
Mas oh ingenuidade! As minhas esperanças de apenas observar a competição começaram a quebrar quando me apercebi que os comentadores do canal, na sua óbvia preferência por Daniel Ferrer me estavam a irritar, quando era óbvio que Roger Federer estava a ser muito superior. Sem o sentimento de que o ténis me estava a frustrar os planos, pude apreciar sem qualquer raiva o ténis do suiço. E depois já não era só o ténis,mas o suiço em si, que quanto mais parecia decidido a derrotar o oponente,mais sexy se tornava. Confesso,assim, que a partir de certo momento, já não estava a assistir a uma competição desportiva,mas a uma espécie de filme erótico alternativo.
Afinal, em que consiste o ténis ( e o futebol,etc) senão numa não consensual penetração simbólica do adversário?
Aquando do Euro 2004, o Jornal de Letras publicou um artigo em que apontava diversos livros sobre futebol, desde crónica de humor brasileiras a estudos sociológicos e antropológicos, que realçavam os aspectos simbólicosdo futebol, afirmando alguns autores que o jogo era uma representação do equilíbrio cósmico,etc. Muito interesante,mas o futebol não me fascina assim tanto e, por isso, sempre que vejo um jogo, não medito no alinhamento metafórico dos planetas: há qualquer coisa nos jogos de equipas que me impede de ver ali algo de especial, para além de um amontoado de gente a correr para o mesmo local atrás de uma bola para atirar para o lado contrário. Fascinante.
Mas o ténis permite a encenação de um combate entre dois guerreiros,ou, caso nos imaginemos no lugar de César ,como eu fiz, entre dois gladiadores ferindo-se, magoando -se sem outro motivo que não a procura da vitória, enquanto a plateia aprecia uma luta cruel por puro entretenimento. Por acaso, havia lutas entre 22 gladiadores?!Claro que não!
Roger Federer é arrogante,afirma que só a posição que ele ocupa é importante e que sente prazer em vencer todos os que o desafiam. Que pena não ter o meu Coliseu privado!