Acabei recentemente de ler Putin’s Russia, de Anna Politkovskaya e, tal como,Zita Seabra,tornei-me uma dissidente,neste caso em relação á série Harry Potter.
Sim,tenho noção que é um perfeito disparate juntar estes livros .Porém, neste momento,eles apareceram associados e sinto-me com vontade de explorar o porquê.
Comprei o livro de AP devido a um sentimento de culpa por não o ter feito antes e li-o,antes de sentir uma verdadeira vontade , por considerar que era meu dever fazê-lo. Não comprei o mais recente livro de JK Rowling e ,embora tenha motivos muito racionais ( bolas, aquilo não era maneira de tratar as minhas personagens loiras preferidas!!) para o justificar, sinto-me como a fiel de uma seita que não seguiu as palavras da sua guru. Na realidade, estou neste momento a lutar contra a compulsão de o comprar e, sempre que evoco as minhas razões para não o fazer,uma vozinha vem logo dizer-me que estou a pecar,ou, numa versão mais politíca, que deveria auto-criticar as minhas critícas ao livro. Não é normal e não é agradável,mas a comparação que me ocorre são as passagens da biografia de Jung Chang, Cisnes Selvagens descrevendo o seu sofrimento quando primeiro começou a questionar Mao.
Reconhecendo que o livro, contrariamente ao anterior, se disfarça de séria abordagem da morte para apenas fornecer uma banal e nada rebelde versão de uma luta do bem contra o mal, escrita à medida do puritanismo de alguns locais onde o livro é venerado, recuso-me a aceitar que a sua autora tenha cedido a tais pressões ou mesmo que delas tenha tirado proveito e lucro, mesmo quando o enredo copia literalmente muitas das sugestões apresentadas na internet. Os fórums dedicados aos fiéis de HP transformaram-se em locais aterradores, em que um mero livro se tornou oráculo e forma de explicar o mundo,onde o inverosímil é defendido como verdade absoluta, onde questões como a sub-entendida homossexualidade de uma das personagens são negadas,não só pelos fãs,como pela própria autora , responsável por tal temática! Esta fala das personagens como se estas fossem entidades reais,em nada sua responsabilidade, ou, mais grave ainda, como se a sua função fosse a de personagens de parábolas, que a autora transmite,mas que não foram por ela inventadas, introduzindo subtilmente uma entidade abstracta que lhe permite discorrer do Bem e do Mal como autoridade moral.
AP fala na primeira pessoa, refere aspectos concretos e verdadeiros e corajosamente dá-nos a sua opinião sobre o seu país. Para mim, o mais assustador não foram os horrores descritos,mas a facilidade com que facilmente nos tornamos coniventes em tais processos e, como, em determinadas alturas, concordamos com eles. Como é fácil sermos manipulados, ou mesmo deixarmos de sentir qualquer interesse pelo que nos rodeia. Ao deixar de ler por um sentimento de dever, parecia ouvir a voz da autora e , em alguns momentos, esqueci-me que fora assassinada. AP não apela a moralismos fáceis nem procura diabolizar a figura de Putin,mas sim demonstrar a responsabilidade do povo, que lhe permite exercer o poder da forma que exerce. Uma carapuça que nos serve a todos.
Em HP, o moralismo maniqueísta ensopa todas as 700 páginas do livro. O “herói” considera-se uma vitíma com direito á vingança, nunca questionando o que o redeia. Os maus são extremamente maus, os bons uns mártires. Em todo o livro,nunca as personagens reflectem sobre a comunidade, apenas agem. Habilmente, a magia da autora ( a verdadeira feiticeira) hipnotiza-nos e fascina-nos,desviando a nossa para o facto de as relações encenadas serem todas elas superficiais e pensadas á medisa de Holywood. De uma autora dedicada a causas sociais e que assume denunciar o preconceito e a intolerância nos seus livros, nenhuma reflexão existe sobre o tema.
Anna apela à nossa lucidez, abre-nos os olhos, enquanto JK nos tenta adormecer os sentidos, fingindo estar a chamar a nossa atenção para CAUSAS muito importantes!
Ficção é ficção, mas como esconder a minha desilusão perante tanta cobardia e premeditação, quando, na minha secretária, tenho o livro de uma repórter assassinada exactamente por tentar mostrar a verdade?!
O livro de AP encontra-se discretamente colocado nas prateleiras da minha livraria habitual ( Bulhosa – Oeirasparque) e nem sequer o vi em cadeias como a FNAC. Não é concerteza o não estar traduzido que poderia atrapalhar a sua divulgação, pois o livro de HP está a vender-se, entre os adultos, como bolas de berlim na praia.
Porque é HP referido como um fenómeno transcendental e o livro Putin’s Russia escondido nas prateleiras?
O que me amedronta é pensar se não estaremos num ponto em que pouco nos interessa quem morre e porquê,mas reagimos emocionalmente ao lançamento de um livro de ficção. Não será a nossa apatia e alienamento perante a nossa situação, misturada com o desejo de sermos encatados e retirados do nosso marasmo que prepara a nossa aceitação de politicos como Putin?
