Julho 2007


Acabei recentemente de ler Putin’s Russia, de Anna Politkovskaya e, tal como,Zita Seabra,tornei-me uma dissidente,neste caso em relação á série Harry Potter.

 

Sim,tenho noção que é um perfeito disparate juntar estes livros .Porém, neste momento,eles apareceram associados e sinto-me com vontade de explorar o porquê.

 

Comprei o livro de AP devido a um sentimento de culpa por não o ter feito antes e li-o,antes de sentir uma verdadeira vontade , por considerar que era meu dever fazê-lo. Não comprei o mais recente livro de JK Rowling e ,embora tenha motivos muito racionais ( bolas, aquilo não era maneira de tratar as minhas personagens loiras preferidas!!) para o justificar, sinto-me como a fiel de uma seita que não seguiu as palavras da sua guru. Na realidade, estou neste momento a lutar contra a compulsão de o comprar e, sempre que evoco as minhas razões para não o fazer,uma vozinha vem logo dizer-me que estou a pecar,ou, numa versão mais politíca, que deveria auto-criticar as minhas critícas ao livro. Não é normal e não é agradável,mas a comparação que me ocorre são as passagens da biografia de Jung Chang, Cisnes Selvagens descrevendo o seu sofrimento quando primeiro começou a questionar Mao.

 

Reconhecendo que o livro, contrariamente ao anterior, se disfarça de séria abordagem da morte para apenas fornecer uma banal e nada rebelde versão de uma luta do bem contra o mal, escrita à medida do puritanismo de alguns locais onde o livro é venerado, recuso-me a aceitar que a sua autora tenha cedido a tais pressões ou mesmo que delas tenha tirado proveito e lucro, mesmo quando o enredo copia literalmente muitas das sugestões apresentadas na internet. Os fórums dedicados aos fiéis de HP transformaram-se em locais aterradores, em que um mero livro se tornou oráculo e forma de explicar o mundo,onde o inverosímil é defendido como verdade absoluta, onde questões como a sub-entendida homossexualidade de uma das personagens são negadas,não só pelos fãs,como pela própria autora , responsável por tal temática! Esta fala das personagens como se estas fossem entidades reais,em nada sua responsabilidade, ou, mais grave ainda, como se a sua função fosse a de personagens de parábolas, que a autora transmite,mas que não foram por ela inventadas, introduzindo subtilmente uma entidade abstracta que lhe permite discorrer do Bem e do Mal como autoridade moral.

 

AP fala na primeira pessoa, refere aspectos concretos e verdadeiros e corajosamente dá-nos a sua opinião sobre o seu país. Para mim, o mais assustador não foram os horrores descritos,mas a facilidade com que facilmente nos tornamos coniventes em tais processos e, como, em determinadas alturas, concordamos com eles. Como é fácil sermos manipulados, ou mesmo deixarmos de sentir qualquer interesse pelo que nos rodeia. Ao deixar de ler por um sentimento de dever, parecia ouvir a voz da autora e , em alguns momentos, esqueci-me que fora assassinada. AP não apela a moralismos fáceis nem procura diabolizar a figura de Putin,mas sim demonstrar a responsabilidade do povo, que lhe permite exercer o poder da forma que exerce. Uma carapuça que nos serve a todos.

 

Em HP, o moralismo maniqueísta ensopa todas as 700 páginas do livro. O “herói” considera-se uma vitíma com direito á vingança, nunca questionando o que o redeia. Os maus são extremamente maus, os bons uns mártires. Em todo o livro,nunca as personagens reflectem sobre a comunidade, apenas agem. Habilmente, a magia da autora ( a verdadeira feiticeira) hipnotiza-nos e fascina-nos,desviando a nossa para o facto de as relações encenadas serem todas elas superficiais e pensadas á medisa de Holywood. De uma autora dedicada a causas sociais e que assume denunciar o preconceito e a intolerância nos seus livros, nenhuma reflexão existe sobre o tema.

 

Anna apela à nossa lucidez, abre-nos os olhos, enquanto JK nos tenta adormecer os sentidos, fingindo estar a chamar a nossa atenção para CAUSAS muito importantes!

 

Ficção é ficção, mas como esconder a minha desilusão perante tanta cobardia e premeditação, quando, na minha secretária, tenho o livro de uma repórter assassinada exactamente por tentar mostrar a verdade?!

 

O livro de AP encontra-se discretamente colocado nas prateleiras da minha livraria habitual ( Bulhosa – Oeirasparque) e nem sequer o vi em cadeias como a FNAC. Não é concerteza o não estar traduzido que poderia atrapalhar a sua divulgação, pois o livro de HP está a vender-se, entre os adultos, como bolas de berlim na praia.

 

Porque é HP referido como um fenómeno transcendental e o livro Putin’s Russia escondido nas prateleiras?

 

O que me amedronta é pensar se não estaremos num ponto em que pouco nos interessa quem morre e porquê,mas reagimos emocionalmente ao lançamento de um livro de ficção. Não será a nossa apatia e alienamento perante a nossa situação, misturada com o desejo de sermos encatados e retirados do nosso marasmo que prepara a nossa aceitação de politicos como Putin?

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Hoje estou num estado de humor que eu descreveria como o de bola de sabão demasiado sensível.

 

Explicar metáforas é aborrecido, sobretudo porque me parece imensamente óbvia: sinto-me uma bola de sabão particularmente frágil, presentemente. Em vez de uma rubicunda e redonda mistura de água e detergente, que, tal qual planeta, consegue planar orgulhosamente no espaço, sinto-me prestes a romper.

 

Não posso permitir ao iTunes passar livremente as canções, porque algumas ou me entusiasmam demasiado,ou me lembram de algo que me deixa demasiado extasiada, o que significa que, nos segundos seguintes, me sentirei triste, mas ainda extasiada. Uf!

 

Não que que importe assim muito de explodir,mas não por causa de umas canções do iTUNES,ou mais concretamente, pela ausência do que elas evocam. Neste caso, pensar o significado na ausência do significante não é sinal de um pensamento evoluído , mas de simples falta.

 

Falta de uma relação de caixão à cova, daquelas que contradizem todos os meus ideais feministas. Decididamente, não uma daquelas relações aconselhadas pela em boa hora extinta revista XIS, que só falava no amor luminoso e divino e mais não sei quantas merdas muito iluminado-espirituais e equivalentes a recomendarem-nos que só comamos tofus e seitans e sojas durante a nossa visa toda.

 

Sim,estou a sentir falta do sofrimento, e de uma falta que só se preenche com sexo. Aliás, a bem dizer, é mais do sexo no contexto destas relações que estou a falar. Ainda não entendi muito bem porque é que sexo tem de ser justificado, ou, como apresentam as revistas femininas ( feministas é que não são) visto como algo que tem de ser ensinado pelos peritos e peritas da referida revista e depois receitado como se fosse um medicamento sujeito a severas regras de posologia.

 

Sexo,sim. Violento,apaixonado ,que deixe marcas e feridas. O que pressupõe a existência de um homem. Concluo, portanto,que estou com falta de homem.

Quero que o Oleg Menshikov bata com a cabeça e acorde a pensar que é o criminoso de guerra sérvio que interpretou no Prime Suspect 6.Inexplicavelmente sentirá uma irresistível vontade de vir a Portugal,onde me encontrará.

 

Como veêm, não vos peço que gastem dinheiro em prendas dispendiosas,apenas que :

  • Provoquem um pequeno acidente
  • O convençam que é a referida personagem
  • Mostrem uma fotografia minha e digam que,em toda a Europa,sou a mais terrível e eficiente caçadora de criminosos de guerra sérvios.

Eu pagarei a viagem até á Russia. Va lá,ofereçam-me isto!

A ideia para este post surgiu de uma troca de comentários a este outro post de Bitchy Jones,entre mim e Elizabeth.

 

Embora eu estivesse a fazer humor, a verdade é que, depois de algum tempo a meditar no assunto, a sugestão nem me parece nada má: um harém de escravos que fossem simultaneamente dominadores e sádicos. Não,não fumei nada. Esta é,verdadeiramente, uma fantasia minha.

 

Eu,sultana Coralina,aborrecida de morte,decido que quero ter uma pequena sessão de BDSM com um homem viril,sedutor,inteligente,dominante e atraente. Debruço-me sobre o meu catálogo de escravos e escolho um. Ele vem, executa aquilo para que não é pago e, quando eu decido,vai-se embora. Não percebo qual a dificuldade em entender este conceito…aha,esperem,é porque sou masoquista!Supostamente,eu é que deveria ser a escrava.

 

….

 

Depois de alguma reflexão ( o tempo de escrever as reticências) concluí que quem sabe o quer sou eu. E eu quero um harém de prisioneiros, obrigados a submeterem-se a mim ( escravos) e obedecerem a todos os meus desejos,o que na prática significa que vão ser eles a terem o chicote na mão.

 

Pronto,está bem. O conceito é rebelde própria percebo que não é muito fácil entendê-lo. Qual é a piada de ser dominada por escravos?!

 

Em primeiro lugar, eles são escravos, não voluntários. Seres a transbordar de raiva parante a minha arrogante pessoa,que lhes ordena que façam o que em entenderem , ou acabam no Coliseu a serem comidos por panteras e leões. A graça está aqui, na perversão da perversão: ordenar-lhes que sejam dominantes.O jogo e a troca de poder. A ironia e a subversão e a minha gargalhada mental!

 

Seria mais sincero,também. O BDSM é um jogo em que desempenhamos papéis e, a não ser que estejamos algo perturbados,não os confundimos com a realidade. Termos como submissão e dominío vieram substituir masoquismo e sadismo, pretendendo passar pela realidade, pois permitem que completos imbecis passem por algo que não são, enquanto que sadismo e masoquismo estão equilibrados e permitem discussões inteligentes. Submissão e dominío são o MacDonalds destas mundo, permitindo toda a elaboração de um absurdo conjunto de regras a ditarem como devem ser vividas relações que apenas dizem respeito aos envolvidos!

 

Por isso,fiquem lá com o vosso latéx,e eu com o meu harém.

 

Claro que no harém não estariam incluídos seres como os descritos aqui e aqui . Da mesma forma que não encontramos Hermés no Oeirasparque. Além disso…ahem…eles são uns moços criativos,não precisam que eu lhes dê instrucções.

Esta entrada está azarada. Primeiro, comecei a escrevê-la mas fui engonhando…engonhando,porque não estava a escrever verdadeiramente o que queria e também me faltava ousadia para ser sincera. Depois, quando já estava lá perto, o wordpress resolve ser maroto e apaga-me a entrada!

 

Castigo divino por tanta luxúria? Bem, é melhor apressar-me antes que um raio me calcine.

 

Na entrada anterior, vociferei contra um dos telefilmes da série Prime Suspect. Depois de cumprir as minhas obrigações feministas, evaporou-se a raiva e ,apesar de eu bem tantar fugir, ignorar e negar, lá ia eu ver pela 29349329348329ésima vez o episódio. Porquê? Porque a Helen Mirren estava na moda. Para comparar com um episódio de uma série francesa que focava o mesmo tema. Porque sim.Finalmente rendi-me: queria lá saber da Helen Mirren ou da guerra na ex-Jugoslávia. Era muito pior e muito pouco politicamente correcto.

 

Óptimo. Orgulhosa por ter alcançado esta brilhante e autêntica conclusão, fruto de muita auto-análise, só faltava traduzi-la em palavras muito elaboradas, num texto altamente explicativo e justificativo. Os planos iniciais incluíam comentários ao argumento, dividindo-o em segmentos e enquadrando as minhas fantasias em tais segmentos.Tudo muito organizado. Tudo muito isolado porque só a idéia de traduzir as fantasias provocadas por determinada personagem era bastante assustadora.

 

Viram? Quatro parágrafos e ainda não disse nada!Enfim,vamos lá: aquele criminoso de guerra sérvio, interpretado pelo actor Oleg Menshikov ,é sexy com’ó caraças!E sim,sim, numa salinha do meu cérebro cuja chave eu acredito sempre ter escondido numa outra salinha ainda mais discreta e escondida, projectaram-se logo umas quantas imagens de fantasias sado-masoquistas. As quais irão ser narradas a partir do 6º paragráfo.

 

Primeiro ponto: a impossibilidade de ser torturada por aquele homem ( o personagem,não o actor:ainda consigo separar mais ou menos a realidade da fantasia) e não gostar . Ou, mais perversamente, detestar a ideía de gostar, de o desejar, de ser obrigada a ter prazer sem consentimento. Pairar num espaço à parte, em que o tempo seria definido pela sua presença ( em inglês seria by the dom’s presence, mas não soa nada bem em português) ou pela sua ausência. Um poderoso sentimento de culpa ( o culpado pelo azar deste comentário?) olhava para mim, fazendo caras feias, mas isso não me impediu de imaginar o estar num armazém semelhante áquele que é mostrado no telefilme, esparsamente iluminado, de joelhos, rodeada por coisa nenhuma, simplesmente à espera que ele viesse. O que seria mais angustiante: ele vir ou não aparecer? Qual seria a forma de tortura mais cruel? Preferir ter a carne ferida ou um sentimento de desorientação e vazio?Igualmente poderoso e muito sugestivo é imaginar aquelas mãos de dedos longos a acariciarem as feridas. Sim, a acariciar. Depois de as ter provocado e sabendo que tem todo o poder para ferir ainda mais. Sinceramente,fantasia á parte ( um pouco de lado, não muito à parte) penso que é algo que esta personagem faria. O que lhe dá tesão não fazer cara de mau e apontar uma arma á cabeça de um sujeito,mas sim ser gentil enquanto aponta uma arma á cabeça de um sujeito. Porque pode.Porque quer.E isso é incrivelmente excitante e perverso e excitante, dirtybadwrong, como muitissimo melhor descreve Bitchy Jones e dominante no sentido Coraliano do termo.

 

Claro que haveria sexo! Não ser…ia a dizer penetrada, mas soa tanto a produto de farmácia anunciado na televisão que optarei pelo vernáculo: não ser fodida seria uma imensa estupidez ! Portanto,sim,penetração. Em todos os sentidos que as feministas radicais, incuindo eu, criticam. Sexo oral,incluindo mais uns quantos vergões por todas as gotas que não foram engolidas. Ser obrigada? (nem mesmo na minha fantasia eu consigo perceber se sou forçada ou não.Que tristeza.) a implorar pela punição. Passar metade to tempo a balbuciar que lhe pertenço. A outra metade a implorar que me demonstre tal coisa.

 

Com este “homem” não haveria limites,a não ser os seus desejos. Nem palavra de segurança.E, provavavelmente,acabaria assassinada no final.E,sim,se fosse por ele, seria o clímax.

 

Mas do que me orgulho mais é que eu sou a Inspectora e nunca deixo de questioná-lo sobre os crimes. Há que pôr cada macaco no seu galho.

 

Nós olhamos e babamos para a personagem Dragan Jankovic/Milan Lukic e percebemos imediatamente que é o criminoso, embora, ironicamente, nunca o vejamos a fazer algo contra a lei: é sedutor de uma forma magnética, é encantador e é cruel, sendo que consegue ser cruel e encantador ao mesmo tempo ( como o Jack Sparrow, outra obsessão). E isso é um poço de petróleo a arder de tão excitante.

 

Ora,há que acrescentar que o actor poderia permanacer mudo o tempo inteiro,que nós continuávamos a perceber que ele era o culpado. Luís Alfredo Garcia-Roza sabiamente afirmava, no seu livro Achados e Perdidos ( Gótica), que a capacidade de sedução independe da intenção. Nada poderia descrever melhor Oleg Menshikov que, como o titulo elucida, é do signo Escorpião, o que significa uma desonesta e cobarde vantagem sobre outros actores, que têm de usar as suas técnicas de linguagem corporal para exprimirem o que actor diz sobre a sua personagem em 5 segundos, sem falar e só por andar ali a passear aquela virilidade provocatória e perigosamente atractiva. Todos os actores do mundo que não fossem do signo Escorpião deveriam, a bem da justiça, caçar e prender esses seres e enviá-los para campos de trabalho,onde,por força da sua natureza, se destruiriam mutuamente. Antes, os actores deveriam pensar na mulher que teve esta maravilhosa idéia,eu, e oferecer-lhe essas criaturas demoníacas como sobremesa.

 

Depois desta catarse altamente censurada, tenho de mencionar algo bem divertido: á força de procurar informações sobre um actor russo, encontrei um fascinate blog português , Klepsidra , que, por sua vez, me guiou até ao filme Sol Enganador, o qual muito me espantou estar á venda na Fnac,por €15,50.