Junho 2007


Recentemente, comprei a sexta temporada da elogiada e premiada série policial inglesa, Prime Suspect, protagonizada por Helen Mirren.

 

Considerado como uma inteligente e dramática abordagem aos crimes e sequelas da guerra na ex-Jugoslávia, este episódio é considerado uma verdadeira pérola televisiva.

 

Pelo menos, é uma verdadeira pérola sexista, habilmente disfarçada de televisão feminista.

 

Desde os primeiros momentos, é-nos oferecida a deliciosa imagem de uma jovem mulher assassinada e torturada. As suas feridas são focadas com um pormenor lascivo. O policia-besta oficial logo se apressa a informar-nos que ela não tem calcinhas. A posição do corpo é,aliás,obsceno-chic-mas sem o chic total,porque a vítima é pobre, mais ou menos neste estilo, juntando-se umas ervinhas para dar mais sabor.

 

Em seguida, continuamos a poder observar esta jovem e as suas aventuras na sala de autópsia: a câmara mostra-nos o seu peito aberto, os seus orgãos, a sua pele cortada. Já nem é uma pessoa, mas um objecto que inspira terror e fascinío. O gore continua por mais uns minutos, até que percebamos que é necessário gozar esta morte, ter prazer com ela.

 

Para entendermos do quanto este crime foi hediondo, a médica legista e a Inspectora-chefe, qual coro Trágico, lamentam o quanto esta jovem era bela. O assassino deixou a cara intacta. A personagem é transformada num objecto com o qual alguém brincou, estragou,mas não danificou completamente.Abjecto!

 

Era também Bósnia e Muçulmana. E também foi torturada quando criança!! Qual Floribella qual quê!!

 

Há uma irmã.A qual foi torturada e violada…mas que sentiu prazer, como discretamente nos é dito.Mas só para proteger a irmã.È uma personagem algo estranha: em plena guerra, numa zona destruída, ao avistar uma grupo paramilitar sérvio cujo líder ordena que o autocarro em que se encontra pare, considera que as coisas até podem correr bem, que ele parecia um homem muito simpático e charmoso ( sim,porque aquelas Kalashnikovs são o acessório do homem que quer inspirar confiança). Talvez,em vez de ofenderem a nossa inteligência,fosse mais honesto e corajoso criarem uma personagem que considera um óbvio inimigo um homem atraente,apesar das circunstâncias. Ainda mais curioso é o facto de esta personagem, sabendo quem seria o culpado pelo rapto e morte da sua irmã,nunca ter dado mais do que informações vagas.
Como sentiu algum prazer, morre com um tiro na cabeça, enquanto limpava a casa – de -banho do hospital ( ela que estudava Medicina)…sendo que grandes quantidades de tinta foram gastas para nos mostrar que ela tinha sido morta.E.claro,morre fazendo um esgar de pânico,sem qualquer tentativa de defesa. Infelizmente, não seguimos as suas aventuras na autópsia.

 

E como é retratado o criminoso de guerra no episódio? Como uma pessoa perturbada? Cruel? Racista?Não,porque isso era mto simplista! Vejamos então o retrato de um criminoso de guerra.

 

Encantador,bom na cama, sedutor,bom na cama,inteligente,bom na cama, tem um número indefinido de amantes,é bom na cama.As vítimas são apresentadas como presas,ele como caçador. Há uma clara erotização da personagem, do mal,da sua violência e, concretamente,da sua violência sobre as mulheres.

 

No fim,este homem é preso…pelo assassinato de outro homem! Quem é pois esta pobre vitíma?!

 

Um tótó: marrão, envergonhado e gentil com as mulheres ,provavelmente virgem, obrigado a alistar-se no exército depois de ir ajudar o pai, ingénuo. Nem tem direito a escrever boa poesia. È apresentado como um fraco. Ou seja, a antítese perfeita do criminoso/herói.

 

A sua esposa é burra,parva,imbecil e leva frequentes pares de cornos. Delicioso. Uma das suas amantes , uma bem sucedida empresária desperta a tesão de um oficial da lei…aquele homem é tão fantástico que consegue as gajas boas que o policia nunca conquistará. Adoro esta série. A mulher de negócios não serve aqui o propósito de criar exemplos de personagens femininas fortes,mas de engrandecer ainda mais o protagonista: não é uma mulher,é o equivalente a um Mercedes e tem o mesmo objectivo.

 

Existe um noivo da irmã mais velha,extremamente muçulmano. Tão bom marido seria que nunca se preocupou em saber o que verdadeiramente se passou com aquela que seria a sua mulher, nunca tentou partilhar o seu sofrimento.Mas assim que ela morre,passa logo a saber que ela foi violada= teve sexo com outro homem.Assim,virilmente,pede ajuda a um grupo de Bósnios ,que certamente violaria mulheres Sérvias, para capturar o criminoso. Coisa de gajos. Em nenhuma altura,mesmo quando uma irmã estava viva,se coloca a hipótese de que ela seria aquela com direito a vingar-se. Em vez de procurar essa irmã prometendo-lhe que iria lixar o filho da puta, Tennyson incentiva-a a contar toda a verdade como um sacrificio pela irmã! Porque a idéia de que uma mulher sente vontade de revelar o trauma da sua violação para que o agressor possa ser capturado não se coloca! A personagem sente que ser violada foi/é uma vergonha,mas a Inspectora,suposto exemplo feminista,nunca a contradiz, permite que ela continue a sentir-se culpada.Culpada por ter sido violada.Culpada porque desejou o homem que a violou e porque, na realidade, desejou a relação sexual. Basicamente, a personagem foi castigada porque sentiu desejo,quando não devia,quando as normas sociais não a autorizavam a tal.

 

Entretanto, a pseudo-feminista inspectora afasta a unica mulher policía da sua equipa da investigação,a qual, por coincidência,é negra ,casada e tem filhos. Esta personagem é definida como cobarde ( denuncia Tennyson ao seu superior com medo das ameaças de Jankovic,o qual insinua que pode arruinar a carreira aos detectives envolvidos) traidora e ambiciosa.Muito claramente,é-nos dito que a ambição feminina é perigosa, anti-feminista, por apenas ser satisfeita através da traição a outras mulheres.

 

Tennyson apenas pode confiar nos homens que a acompanham. A outra mulher pseudo-poderosa desta investigação, uma alta funcionária da Scotland Yard,nem direito a nome tem. Qual gélida e pérfida criatura,impede Tennyson de continuar a investigação,negando os factos que esta reuniu através de UM colega de curso : pelos vistos,na Sérvia,as mulheres não estudavam optometria ou então estavam todas caídinhas por Jankovic. Ah,depois é-nos subtilmente dito que essa mulher,Madame X,andava a fornicá-lo. Ou seja, as mulheres,mesmo quando o cargo que ocupam indica a sua extrema competência,não são de confiar: basta sentirem-se atraídas por um homem que logo se apressam a facilitar-lhe a vida.Só Tennyson resiste apesar de sentir necessidade,da primeira vez que interroga Jankovic,de fechar o casaco e apertar todos os botões da sua camisa ao seu charme e sedução.

 

Comparemos estes episódios com um outro , da série policial La Crim,abordando o mesmo tema.

 

A “vitíma” é uma mulher orgulhosa da sua sexualidade, sedutora e confiante.Não foi violada. Envolve-se com o agressor, retratado como um homem arrependido, brusco e misterioso,mas de sentimentos sinceros.Nenhum se lembra do outro, até um determinado momento,um simples flash.Lembrando-se da morte dos seus pais, a jovem mata o criminoso,o qual morre a pedir-lhe perdão. Diferente,não acham?

 

Agora,acham que se aparecesse aos argumentistas de Prime Suspect 6 de Kalashnikov ao ombro e camuflado,no meio da estrada e lhes ordenasse que saíssem das suas viaturas,eles me achariam simpática?

Receio pertencer-vos
e que me pertençais
a mim, porque tenho
medo de vós, e medo
de mim”.

(Mª Gabriela Llansol, Contos do Mal Errante)

Era suposto este ser um comentário extremamente intelectual sobre BELEZA,mas…sofreu algumas alterações.

 

Na realidade, este comentário está guardado na minha pasta de rascunhos há algum tempo, mas não tenho tido disposição para o desenvolver convenientemente. Felizmente, ontem, depois da segunda visualização de POTC 3, sinto-me muito mais inspirada!Até incluí uma bonita citação que não tenciono explicar nem contextualizar, optando por vos dar o link para o elegante e erudito blog onde onde encontrei a citação.

 

Não, não vou dizer que o filme era muito bom e não vou voltar a anunciar a minha por enquanto saudável obsessão pelo Johnny Depp.

 

E não, não gostei mais do filme por o ver uma segunda vez, porém o facto de não ter de estar preocupada em seguir o argumento permitiu-me reparar noutros elementos. E foi de certa forma perturbante perceber que bem escondido no meio de todos aqueles gritos mais ou menos sem sentido de liberdade ou morte, está um retrato de uma relação subtilmente sado-masoquista. É tão discreta que é quase invisível,mas,depois de detectada, parece uma lâmina fina tocar-nos durante todo o fime. Como um fantasma que sabe que apenas se a luz incidir de certa maneira é possível vê-lo. E o pior é que é extremamente erótico, mas extremamente cruel.

 

No filme anterior, toda a sequência em que Elizabeth amarra ( ou é Jack que se deixa amarrar?) é toda ela uma pequena ilha coberta de palmeiras S&M: há um verdadeiro prazer,quase uma sensação de triunfo por parte de Elizabeth ao fazê-lo.O que parece mais brutal é tal acto ser consumado imediatamente após Jack ter temporariamente derrotado o Kraken.

 

Mas,aos olhos de Elizabeth, não é o verdadeiro culpado de tal situação que regressara,mas um ser superior,envolto em luz, perante o qual ela se ajoelha .É quase um momento de delirante êxtase, pelo que,embora radical,o seu acto corresponde a um momento de lucidez. Se ela não o destruísse, acabaria destruída, devorada por uma paixão que a fizera tornar-se uma exilada, trair os seus, ser condenada à morte e enfrentar, um monstro que não a perseguia a ela ( ecos de Medeia?). Realcemos que Elizabeth se concentra não em neutralizar Jack,mas em garantir que ele assiste à sua morte, sem qualquer hipótese de fuga.

 

Mas a sensibilidade e inteligência do realizador fere mais fundo: tal sensação de triunfo mescla-se com o seu desejo por Jack. Esqueçam o beijo,porque é exactamente o que nunca é consumado que interessa. Jack pára abruptamente de beijar Elizabeth,distancia-se,torna-se inalcançável, sem nunca a afastar. Se nos primeiros segundos, Elizabeth claramente domina, empregando a sua sexualidade,rapidamente se torna a presa, assim que o contacto com Jack se quebra. A contrário daquela,este não a domina pela fisicalidade, mas pela ausência, pela não satisfação do desejo, pela suspensão do toque, sem que nunca concretamente diga “não”.

 

Neste terceiro filme, será essa a dinâmica da relação entre ambos: Jack nega continuamente a Elizabeth a relação, o diálogo, o toque, sem nunca a afastar da sua presença. Como a poderia dominar,afastando-a? Como fazê-la sofrer, pura e simplesmente dizendo “desaparece da minha frente”?! Era essencial que Elizabeth sentisse que não lhe era permitido aproximar-se, mas que deveria desejar tal aproximação. Era necessário fazê-la arder sem que queimasse.Mas,mais importante ainda, era o ter poder sobre ela, sobre o seu ânimo, sobre a sua vida,sobre o seu futuro.É Jack quem decide salvar (?) Will da sua morte,para depois o oferecer a Elizabeth, uma prenda envenenada, que não trará qualquer prazer nem felicidade.

 

Elizabeth,personagem contida e austera , pouco dada a dramáticas expressões de emoção e raramente mostrando alegria ou contentamento, modifica-se na presença de Jack.A sua procura, os seus gestos para com ele,tornam-se ainda mais contundentes, porque nunca verbalizados, porque nunca encontram um eco :

  • Quando no inferno de DJ, assim que avista Jack, o seu impulso é correr para ele, pela primeira vez demonstrando prazer . Não esqueçamos que, desde as ultímas cenas filme anterior, Elizabeth era retratada como sentindo sempre frio ( metáfora para a morte), procurando isolar-se,devorada pela culpa . Contém-se ao lembrar-se porque estão ali.
  • Continuando Jack a pensar que está a alucinar, é ela quem esclarece que eles são reais, que estão mesmo ali,apenas para ser ignorada
  • A bordo do Black Pearl, durante a cena das pistolas, Elizabeth aponta as suas em defesa de Jack, o qual, sem qualquer hesitação , a ameaça com as suas próprias armas. Mais uma vez, Elizabeth não fala,apenas podemos observar a sua expressão de espanto e tristeza.
  • Na fortaleza dos piratas, Jack nomeia Elizabeth “rainha” sem que lhe dirija directamente a palavra. Existe claramente um entendimento perfeito entre eles,mas a distância nunca é ultrapassada, a távola não tão redonda está sempre entre eles, mesmo quando ela sorri para mostrar que compreendeu o seu plano.
  • Quando trocam Jack por Will, não neste que Elizabeth pensa, mas em assegurar que Jack consiga levar os seus planos a bom porto. Não interessa que este os tenha traído, que tenha usado Will ( que alegremente se deixa usar, para não ter de tomar decisões), que apenas esteja preocupado com a sua imortalidade, que a deixe encarregue de liderar uma batalha em que as probabilidades apontam para uma derrota ,que significará a sua morte e a de muitas outras pessoas. A mulher que guiará as suas tropas na batalha pela LIBERDADE abdicou da sua. Também Davy Jones afirmará ” My freedom was forfeit long ago“.
  • Ao voarem , e depois de parecer que queria morrer ao lado de Will, Elizabeth encosta- se a Jack de uma forma terna, íntima. Mas,mais uma vez, não há resposta.
  • Depois de vencerem o Endeavour, Elizabeth sorri novamente a Jack, mostrando-se alegre pela vitória alcançada, qurendo partilhá-la com ele, mas apenas uma um gesto glacial lhe responde, sem que Jack tente fingir que ignorou o seu movimento. Não o ignorou,apenas recusa acolhê-lo.
  • Finalmente,quando se vai despedir ( sem que nós tenhamos visto uma genuína vontade pela sua parte de abandonar o navio),tenta beijá-lo. Mas aí a recusa é notória e verbalizada, exposta perante toda a tripulação:Once was quite enough! Mas, perversamente, dirá antes: Keep telling yourself that, darling ( em resposta ao comentário de Elizabeth em como a sua relação nunca resultaria). Primeiro, uma ténue esperança, seguida de uma recusa absoluta

Mantém – na, no entanto, suficientemente perto de si, para que ela possa sentir que lhe é negada uma aproximação,mas sem nunca ter a certeza que tal será irreversível, pelo que nunca pára de tentar a proximidade que lhe permitirá colmatar a falta de Jack. Quanto mais insatisfeita, mas vulnerável se torna Elizabeth, mais a ferida de tal falta se faz sentir,e,tal como Davy Jones, acaba por procurar , através da imolação no altar daqueles que aman, colmatar a distância e conseguir o amor e a admiração do Objecto. Tal como o Prof. Coimbra de Matos revela, o masoquismo encontra-se , muitas vezes, com o narcisismo.

 

Volto a citar a personagem de David Jones ” you’re a cruel man,Jack Sparrow”. Mas não é só esta personagem que o capitão do Flying Dutch considera desumana; também a sua amada/odiada Calypso é descrita como cruel, manipuladora e mentirosa, seduzindo as suas vitímas para alcançar os seus propósitos. Abandonando-os sempre que considerar conveniente.Tal qual Jack Sparrow.Quando questionados sobre os motivos da sua traição, Davy Jones e Elizabeth responderão o mesmo ” I had no choice”: nem Jack nem Calypso estavam lá quando Davy Jones e Elizabeth precisaram, depois de estarem dispostos não só a oferecer-lhes a sua vida,mas também a sua morte.

 

A relação de Elizabeth para com Jack , neste filme,constrói-se pelos negativos: pela ausência, pela insatisfação, pelo silêncio, pelo sofrimento, pelo desejo constantemente frustrado,pela procura auto-destruição, numa tentativa de alcançar o outro, que está lá, apenas para mostrar que não está lá para ela. Ironicamente, é por Elizabeth que Jack abdica da sua imortalidade.Não esqueçamos também a cena em que ambos voam, escapando ao túmulo em que se transformara o navio Flying Dutch, a primeira cena em que Jack procura Elizabeth.

 

Jack ama-a,mas é incapaz de perdoar , tal como Calypso, é, no ultimo momento,incapaz de perdoar Davy Jones: este e Elizabeth cometeram o pecado de demonstrar que eles eram humanos, que eram passíveis de amar e sofrer, que eram mortais e vulneráveis. Ambos são demasiado cruéis, demasiado orgulhosos e foram demasiadado feridos para que consigam perceber o sofrimento daqueles que os aman e, dessa maneira,perdoar. Afinal,nenhum mortal desafia os deuses impunemente.

 

Mas a verdadeira questão que se me coloca é igualmente a questão colocada pelo realizador: afinal,não somos nós que procuramos e adoramos tais deuses?

Minhas amigas e meus amigos, considero que devemos ser solidários para com Putin, em vez de injustamente o acusarmos de ser um ditador,convencido que é o novo Tsar!

 

Sejamos sinceros,algum de nós se imagina a ser um apaixonado democrata, depois de entrarmos em tal morada?

 

 

 

 

Gosto muito de vocês, mas, depois de me sentar naquele trono, só me ocorreria ser ditadora suprema.

 

Imagem pode ser encontrada AQUI.