Considerado como uma inteligente e dramática abordagem aos crimes e sequelas da guerra na ex-Jugoslávia, este episódio é considerado uma verdadeira pérola televisiva.
Pelo menos, é uma verdadeira pérola sexista, habilmente disfarçada de televisão feminista.
Desde os primeiros momentos, é-nos oferecida a deliciosa imagem de uma jovem mulher assassinada e torturada. As suas feridas são focadas com um pormenor lascivo. O policia-besta oficial logo se apressa a informar-nos que ela não tem calcinhas. A posição do corpo é,aliás,obsceno-chic-mas sem o chic total,porque a vítima é pobre, mais ou menos neste estilo, juntando-se umas ervinhas para dar mais sabor.
Em seguida, continuamos a poder observar esta jovem e as suas aventuras na sala de autópsia: a câmara mostra-nos o seu peito aberto, os seus orgãos, a sua pele cortada. Já nem é uma pessoa, mas um objecto que inspira terror e fascinío. O gore continua por mais uns minutos, até que percebamos que é necessário gozar esta morte, ter prazer com ela.
Para entendermos do quanto este crime foi hediondo, a médica legista e a Inspectora-chefe, qual coro Trágico, lamentam o quanto esta jovem era bela. O assassino deixou a cara intacta. A personagem é transformada num objecto com o qual alguém brincou, estragou,mas não danificou completamente.Abjecto!
Era também Bósnia e Muçulmana. E também foi torturada quando criança!! Qual Floribella qual quê!!
Há uma irmã.A qual foi torturada e violada…mas que sentiu prazer, como discretamente nos é dito.Mas só para proteger a irmã.È uma personagem algo estranha: em plena guerra, numa zona destruída, ao avistar uma grupo paramilitar sérvio cujo líder ordena que o autocarro em que se encontra pare, considera que as coisas até podem correr bem, que ele parecia um homem muito simpático e charmoso ( sim,porque aquelas Kalashnikovs são o acessório do homem que quer inspirar confiança). Talvez,em vez de ofenderem a nossa inteligência,fosse mais honesto e corajoso criarem uma personagem que considera um óbvio inimigo um homem atraente,apesar das circunstâncias. Ainda mais curioso é o facto de esta personagem, sabendo quem seria o culpado pelo rapto e morte da sua irmã,nunca ter dado mais do que informações vagas.
Como sentiu algum prazer, morre com um tiro na cabeça, enquanto limpava a casa – de -banho do hospital ( ela que estudava Medicina)…sendo que grandes quantidades de tinta foram gastas para nos mostrar que ela tinha sido morta.E.claro,morre fazendo um esgar de pânico,sem qualquer tentativa de defesa. Infelizmente, não seguimos as suas aventuras na autópsia.
E como é retratado o criminoso de guerra no episódio? Como uma pessoa perturbada? Cruel? Racista?Não,porque isso era mto simplista! Vejamos então o retrato de um criminoso de guerra.
Encantador,bom na cama, sedutor,bom na cama,inteligente,bom na cama, tem um número indefinido de amantes,é bom na cama.As vítimas são apresentadas como presas,ele como caçador. Há uma clara erotização da personagem, do mal,da sua violência e, concretamente,da sua violência sobre as mulheres.
No fim,este homem é preso…pelo assassinato de outro homem! Quem é pois esta pobre vitíma?!
Um tótó: marrão, envergonhado e gentil com as mulheres ,provavelmente virgem, obrigado a alistar-se no exército depois de ir ajudar o pai, ingénuo. Nem tem direito a escrever boa poesia. È apresentado como um fraco. Ou seja, a antítese perfeita do criminoso/herói.
A sua esposa é burra,parva,imbecil e leva frequentes pares de cornos. Delicioso. Uma das suas amantes , uma bem sucedida empresária desperta a tesão de um oficial da lei…aquele homem é tão fantástico que consegue as gajas boas que o policia nunca conquistará. Adoro esta série. A mulher de negócios não serve aqui o propósito de criar exemplos de personagens femininas fortes,mas de engrandecer ainda mais o protagonista: não é uma mulher,é o equivalente a um Mercedes e tem o mesmo objectivo.
Existe um noivo da irmã mais velha,extremamente muçulmano. Tão bom marido seria que nunca se preocupou em saber o que verdadeiramente se passou com aquela que seria a sua mulher, nunca tentou partilhar o seu sofrimento.Mas assim que ela morre,passa logo a saber que ela foi violada= teve sexo com outro homem.Assim,virilmente,pede ajuda a um grupo de Bósnios ,que certamente violaria mulheres Sérvias, para capturar o criminoso. Coisa de gajos. Em nenhuma altura,mesmo quando uma irmã estava viva,se coloca a hipótese de que ela seria aquela com direito a vingar-se. Em vez de procurar essa irmã prometendo-lhe que iria lixar o filho da puta, Tennyson incentiva-a a contar toda a verdade como um sacrificio pela irmã! Porque a idéia de que uma mulher sente vontade de revelar o trauma da sua violação para que o agressor possa ser capturado não se coloca! A personagem sente que ser violada foi/é uma vergonha,mas a Inspectora,suposto exemplo feminista,nunca a contradiz, permite que ela continue a sentir-se culpada.Culpada por ter sido violada.Culpada porque desejou o homem que a violou e porque, na realidade, desejou a relação sexual. Basicamente, a personagem foi castigada porque sentiu desejo,quando não devia,quando as normas sociais não a autorizavam a tal.
Entretanto, a pseudo-feminista inspectora afasta a unica mulher policía da sua equipa da investigação,a qual, por coincidência,é negra ,casada e tem filhos. Esta personagem é definida como cobarde ( denuncia Tennyson ao seu superior com medo das ameaças de Jankovic,o qual insinua que pode arruinar a carreira aos detectives envolvidos) traidora e ambiciosa.Muito claramente,é-nos dito que a ambição feminina é perigosa, anti-feminista, por apenas ser satisfeita através da traição a outras mulheres.
Tennyson apenas pode confiar nos homens que a acompanham. A outra mulher pseudo-poderosa desta investigação, uma alta funcionária da Scotland Yard,nem direito a nome tem. Qual gélida e pérfida criatura,impede Tennyson de continuar a investigação,negando os factos que esta reuniu através de UM colega de curso : pelos vistos,na Sérvia,as mulheres não estudavam optometria ou então estavam todas caídinhas por Jankovic. Ah,depois é-nos subtilmente dito que essa mulher,Madame X,andava a fornicá-lo. Ou seja, as mulheres,mesmo quando o cargo que ocupam indica a sua extrema competência,não são de confiar: basta sentirem-se atraídas por um homem que logo se apressam a facilitar-lhe a vida.Só Tennyson resiste apesar de sentir necessidade,da primeira vez que interroga Jankovic,de fechar o casaco e apertar todos os botões da sua camisa ao seu charme e sedução.
Comparemos estes episódios com um outro , da série policial La Crim,abordando o mesmo tema.
A “vitíma” é uma mulher orgulhosa da sua sexualidade, sedutora e confiante.Não foi violada. Envolve-se com o agressor, retratado como um homem arrependido, brusco e misterioso,mas de sentimentos sinceros.Nenhum se lembra do outro, até um determinado momento,um simples flash.Lembrando-se da morte dos seus pais, a jovem mata o criminoso,o qual morre a pedir-lhe perdão. Diferente,não acham?
Agora,acham que se aparecesse aos argumentistas de Prime Suspect 6 de Kalashnikov ao ombro e camuflado,no meio da estrada e lhes ordenasse que saíssem das suas viaturas,eles me achariam simpática?
