Nada me aborrece mais do que algo que não assume completamente o que é.
POTC 3 brinca com a idéia da Tragédia,mas nunca tem coragem de entrar no recreio;tenta ser Hollywood,mas nunca alcança clássicos de filmes sobre Piratas,como “Captain Blood”.
Sobretudo,parece um filme em que a acção só existe como fuga ao pensamento: será credível que uma pessoa mate outra,mas que as duas nunca discutam tal? Elizabeth e Jack apenas trocam diálogos superficiais e, se não fosse o facto de Keira e Johnny serem bons actores,até nos esqueceríamos que aquelas duas pessoas se conheciam. Alguém me explique como,no primeiro filme,o objectivo de Jack é matar Barbossa como vingança por este o ter deixado para morrer e nem sequer troca uma frase mais desagradável com Elizabeth!Como é possível que , em 2007, se ignore a tensão sexual existente entre ambos,como é possível que uma mulher não tenha direito de desejar um homem?! Um actor como Johnny Depp e nada?!!Nem uma intensa troca de palavras?! A não ser que oferecer-lhe um marido morto-vivo ,depois de afirmar que não a perdoa,seja a vingança: “não me podes ter,mas não terás mais ninguèm”. Uhum…pálida comparação perante o perturbante e violentamente sensual “Duel in the sun”.
Parece ter havido falta de coragem para abordar uma relação claramente sado-masoquista, na qual os protagonistas sentem que o amor que o outro inspira é a causa da sua destruição. Na realidade, na minha opinião, a relação entre Jack Sparrow e Elizabeth Swann é espelhada através da relação entre Davy Jones e a deusa Calypso. Quando esta lhe pergunta porque a traiu,DJ responderá que não teve alternativa,porque não lhe sobrava mais nada, porque o amor que sentia por ela o estava a destruir.JS e Calypso são os deuses ( pagãos, como foi necessário realçar) da Tragédia, cruéis, indiferentes aos resultados das suas acções sobre os mortais, encantadores e terríveis, ou talvez terríveis porque encantadores,porque mostram a sua natureza ( would you love me if I was any different, pergunta Calypso a DJ) e mesmo assim atraem os mortais. DJ e ES estavam dispostos a morrer por tais deuses, a sacrificarem-no seu altar e nada receberam em troca. não são verdadeiramente os deuses que eles odeiam,mas a sua própria humanidade,que os impele a irem direitinhos para o altar sacrificial. Ambos tentam que destruir aqueles que amam,transformando-os em meros mortais,fazendo-os sofrer o peso das suas acções,capazes de morrer,mas a maldição cai igualmente sobre eles.
Jack,no filme anterior, regressa ao barco para enfrentar o Kraken,mas antes abandonara Elizabeth a esse mesmo monstro. JS abandona o navio como um cobarde e regressa como um deus ( interessante notar que Elizabeth era aquela que carregava o simbolo fálico,apenas o perdendo para Jack),envolto em luz.
Mesmo mais do que Calypso ( que não faz absolutamente nada, a não ser exemplificar a raiva sentida por quem foi despojada de poder), Jack decide sobre a vida e sobre a morte dos que o rodeiam, : Will,que,verdadeiramente,não teve oportunidade de decidir se queria ou não passar a eternidade como morto-vivo.Aliás,Will não decide absolutamente nada: não sabe se quer ser pai ou filho,se quer ser companheiro de uma mulher,ou regressar à infância e ao seu sonho de criança de ter um pai;è por isso acertado que termine a viajar entre a vida e a morte,sem estar verdadeiramente vivo ou morto.
Elizabeth ,ao invés,aparece como a guerreira,aquela que decide o seu próprio destino, que decide sobre a sua vida e a sua morte, a heroína trágica que desafia em deus que a considera como sua igual.Só os heróis conseguem ir ao Inferno e regressar,mas nenhuma das personagens consegue verdadeiramente ultrapassar a morte,porque todas elas vivem num constante pesadelo,em que o elemento que as deveria salvar,o amor,é aqui o elemento da sua perdição. Elizabeth, a guerreira,aceita uma vida em que é companheira virtual de um morto-vivo,pelo mesmo motivo que Ulisses pediu que o prendessem ao mastro do seu navio: nenhum deles conseguia verdadeiramente resistir à tentação de se deixar fascinar pelo que os poderia destruir.DJ e ES pagam um pesado preço por terem desafiado os deuses em busca da sua liberdade: ele apenas pode ter Calypso ao morrer,Elizabeth viverá uma vida em que não é nem livre nem esposa/amante.
Will é,apesar ( ou devido a essa sua dificuldade em assumir-se) da sua incapacidade de decidir ,o ponto de equilibrio entre estas duas forças,JS e ES.E,por isso,aquele que DJ mata.Will é aquela doce personagem trágica,amada por protagonistas violentos,agressivos e cruéis,que nele conseguem descobrir a sua ternura e um mundo onde não é preciso matar para não ser morto. E,por isso,a sua perda desencadeia as acções omnipotentes dos referidos protagonistas, em contrapartida à doçura do que foi perdido.
Mas tudo isto são elementos demasiado rápidos para serem verdadeiramente profundos,para nos convidarem a reflectir ,ou,sequer ,para nos dar tempo para perceber o que se está a passar.São meros flashes,como,se,por breves segundos Eurípedes tivesse possuído a mente dos argumentistas,para,5 segundos depois,se ir embora.
Sao-Feng vocifera que apenas ajudará Jack a sair do inferno para depois o matar,Beckett não é capaz sequer de verbalizar de que forma Jack o marcou e Davy Jones fará a mais dramática e simples de todas as afirmações: “You’re a cruel man,Jack Sparrow ” ( contraponto perfeito ao que Calypso pensa de DJ ” You were many things,but you’re never cruel,Davy Jones”). Mas cadê todo esse desparrame de crueldade? Por acaso ficamos a saber de forma foi Sao-Feng ofendido? E que marca esconde Beckett?
E,desde quando é que os piratas,anarquistas,musas e musos do movimento “punk”, seguem regrinhas e lutam por valores como a liberdade e a justiça para todos? Os piratas ganhavam a vida a assaltar e a matar, não a seguirem Elizabeth d’Arc, a guerreira virgem. E Keith Richards como guardião da lei?! O homem que passou a vida a transgredir guarda a lei?!Diabolizar uma instituição Europeia, a Cª das Indías Ocidentais,sem qualquer respeito pela história,numa patética tentativa de criar um temível inimigo colectivo,é parvo e fácil. Vão ler Uma História geral dos piratas e a Pirata para perceberem que a esta ficção nem sequer é digna de competir com a realidade.
O primeiro filme era rebelde,revitalizante e conseguia explorar as personagens. O tema central era a vingança e a perda de poder e o filme não deixou de ser divertido.
Johnny Depp está sublime a Keira Knightley é austera e trágica,mas o primeiro poucas oportunidades tem de representar,porque a sua personagem nunca está perante uma situação conflituosa mais de alguns milésimos de segundo.mas a cena em que segura o coração de Davy Jones e anuncia que nada se compara a ter poder sobre a vida de outrém é…poderosa.
Alguém imagina Jeanne d’Arc,Boadicea,Rainha Jinga ou Alexandre o Grande numa ilha à espera do seu amado/a,vestida como uma dama/cavalheiro,com o seu filhote? Pois,eu também não.
Mais importante,o filme chama-se Piratas das Caraíbas. Ou seja,indica um filme de piratas passado nas Caraíbas. Belas praias,mar azul,pôr-do-sol,tesouros escondidos,maldições,seres desonestos e aventureiros.
Não indica uma aborrecida versão de Star Wars a que se juntam pós de tragédia,passado numa paisagem em que está sempre frio,a chover e envolta em névoa!Merda,Caraíbas,não Escócia!